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Laudo: ossada encontrada em Brasília é de detido pelas Forças Armadas em 1971

Pela primeira vez, Comissão da Verdade consegue identificar e devolver aos familiares os restos mortais de uma vítima da ditadura

BRASÍLIA - A Comissão Nacional da Verdade (CNV) divulgou nesta sexta-feira o resultado de laudo pericial que confirma que uma ossada encontrada num cemitério de Brasília é do sapateiro, garimpeiro e líder comunista Epaminondas Gomes de Oliveira, detido pelas Forças Armadas em 1971, aos 68 anos, no Pará. É a primeira vez que a comissão consegue identificar e devolver aos familiares os restos mortais de uma vítima da ditadura. A ossada será levada amanhã a Porto Franco, no Maranhão, para o enterro no domingo.

O coordenador-geral da CNV, Pedro Dallari, criticou as Forças Armadas por não colaborarem com o trabalho da comissão e chegou a dizer que tem a impressão de haver uma articulação para obstruir os trabalhos da comissão:

- Há uma resistência grande por parte das Forças Armadas em fornecer as informações solicitadas pela Comissão Nacional da Verdade. É uma situação grave, porque a Comissão Nacional da Verdade não é uma organização não-governamental, mas uma instituição do Estado brasileiro. Constitui uma burla da legislação.

Dallari deu como exemplo um ofício enviado à comissão pelo Hospital de Área de Brasília, antigo Hospital da Guarnição Militar, onde Epaminondas teria morrido menos de um mês após ser detido num garimpo do Pará. No ofício, redigido no ano passado, o hospital diz que, em respeito a uma orientação do Comando do Exército, apenas o gabinete do Comandante do Exército poderia prestar informações sobre o caso. E o Comando do Exército, por sua vez, já em janeiro de 2014, encaminhou ofício à comissão afirmando que não havia informações sobre Epaminondas no hospital. A comissão duvida da veracidade dessa informação, uma vez que, segundo informações do próprio hospital, há um arquivo morto com prontuários e documentos da unidade de saúde.


O neto do líder comunista, Epaminondas de Oliveira Neto, disse que tinha 9 anos quando seu avô foi detido. Ele é investigador da Polícia Civil do Maranhão e afirmou que ingressou na carreira para localizar o paradeiro do corpo do avô.

- Eu tinha uma ideia fixa: encontrar e levar de volta o corpo do meu avô. Foi uma história de dor, de muito sofrimento e tristeza. Não tivemos a oportunidade de velar o nosso morto. Eu tinha 9 anos quando meu avô foi levado. Vi pai chorando, mãe chorando, vi aquela agonia. E a ordem era ficar calado. Não podíamos falar nada – afirmou Epaminondas Neto.

O médico-legista Aluísio Trindade Filho, do Instituto Médico-Legal de Brasília, disse que não foi possível fazer exame de DNA. Mas afirmou que o exame da ossada permitiu identificar diversas características que asseguram que os restos mortais são os de Epaminondas. Uma obturação num dente anterior ao canino, a altura, a idade, a ancestralidade mestiça e a sobreposição do crânio sobre fotos de Epaminondas foram algumas das características apontadas pelo legista para a identificação.


Fonte: O Globo

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