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‘Policial feminina passa maior confiança', diz policial militar

Se até meados de 2010 a carioca Flávia Louzada podia chamar um pouco de atenção por sua farda de policial militar, tanto quanto uma mulher costuma despertar na função, em novembro daquele ano a situação ela se tornou uma espécie de celebridade. Única mulher a integrar a força de ocupação do Complexo do Alemão e da Vila Cruzeiro, ela ganhou notoriedade e, agora, até uma edição própria no reality show Papo de Polícia, programa sobre a rotina de policiais que é exibido pelo canal pago Multishow e que nesta semana vem focalizando o dia a dia de Flávia. Aos 32 anos, a policial diz que não é vítima de preconceito por ser mulher e, pelo contrário, sente que a população parece mais confortável em se abrir com ela que com seus colegas homens. “Percebi que vítimas de violência doméstica e estupro tendem a rejeitar os policiais masculinos e me procurar. Nessa parte, eu levo vantagem.”
A policial, em exercício há seis anos e hoje no batalhão 22 do Rio de Janeiro, decidiu seguir a carreira quando a mãe, Maria Helena, foi assassinada ao sair da escola em que lecionava. O caso, ocorrido em 1991, segue sem solução, mas a suspeita é de que um aluno que levava uma arma de fogo para a escola tenha se vingado da professora, que o havia expulsado da aula. No primeiro episódio do programa Papo de Polícia, Flávia conta que não escolheu a profissão para se vingar de criminosos como o que tirou a vida da mãe, mas sim para evitar que outras pessoas enfrentem o que ela enfrentou.
O vínculo entre vida pessoal e carreira não para aí. Como a personagem Helô, a delegada vivida por Giovanna Antonelli na novela Salve Jorge, Flávia diz ter dificuldade de se desvencilhar do trabalho no tempo livre. “A gente não consegue se desligar, sair do batalhão e simplesmente apertar um botão e esquecer as situações que viveu”, afirma.
A série Papo de Polícia é produzida pela ONG AfroReggae e tem direção de José Júnior, coordenador do projeto. O canal Multishow reprisa um compacto com os melhores momentos dos episódios no dia 10 de maio, às 18h, e no dia 15 de maio, às 15h. Alguns trechos estão disponibilizados no site do programa. Confira a entrevista de Flávia Louzada ao site de VEJA:
Você tem parentes ligados às armas. A família influenciou na escolha da sua carreira? Meu pai era da aeronáutica e meu tio era militar, mas não me influenciaram. Na verdade, foi o assassinato da minha mãe, em 1991, o que mais me motivou a entrar para a polícia. As pessoas falam que eu quis me vingar, mas não é isso, eu entrei para evitar que algo parecido aconteça com outras pessoas. Eu sei que sozinha não consigo dar conta disso, mas costumo dizer que uma andorinha só não faz verão, mas indica que outras vão vir. Então, por que não ajudar? Por isso que o trabalho administrativo na polícia não me atrai, porque eu não teria contato com a população, com a sociedade.
O que sua família acha do seu trabalho? Eles ficam preocupados. Durante a invasão do Alemão, eu dizia que trabalhava dentro do batalhão, que não tinha participado da ação dentro da favela. Depois, quando saiu no jornal o fato de eu ser a única mulher a fazer parte da operação, minha família descobriu que eu trabalhava na rua também. Durante a invasão, fui atingida por estilhaços de granada na perna e então minha avó descobriu que eu tinha participado da ação. Para evitar sustos, eu sempre procuro ligar para ela antes de entrar em serviço e quando saio. Eu entendo a preocupação para eles, que estão de fora. Quando estou em operação, não dá para pensar muito, porque o medo congela e impede a ação. Se eu pensar muito e entrar em pânico, vou atrapalhar a operação e colocar em risco a minha segurança e a dos colegas.
Você já chegou a sofrer preconceito por ser mulher? Não, preconceito não. Mas é muito escasso o número de mulheres na rua, no meu batalhão mesmo só tem mais uma que trabalha assim. Os meninos ficam com receio porque há poucas mulheres nas ruas e eu até entendo essa preocupação. Quando você entra com uma equipe em uma favela ou alguma operação mais perigosa, é como se entregasse sua vida ao colega. Não é nem preconceito dos rapazes, é uma espécie de autodefesa. Quanto menos preocupação a gente tem em uma hora difícil, melhor, então eles ficam muito inseguros. Por outro lado, acho que a população confia mais em mulher. No Complexo do Alemão, muitas pessoas eram obrigadas por bandidos a guardar armas e drogas em suas casas, mas elas não chegavam no policial homem para falar, elas chegavam em mim. Como eu fumo, eles me ofereciam uma caixa de fósforos com um mapa com a localização dos objetos. Eu vi que a população chega mais em mim quando quer pedir alguma coisa do que em um homem. Eu já peguei na viatura vítimas de violência doméstica e estupro e percebi que elas rejeitam os homens ao mesmo tempo em que elas me procuram. Acho que nessa parte eu levo vantagem.
Você foi a única mulher a participar da ocupação da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão. O fato de ser mulher fez alguma diferença para os seus colegas? Nem sabia que ia dar essa repercussão toda. Ficamos três dias na mata, então tive que ficar uns três dias sem tomar banho e sem ter um banheiro para usar. Eu tive que me virar como os meninos. O fato de eu ser mulher despertava curiosidade, no dia da ocupação vieram policiais de todos os batalhões, além do Exército, então os policiais se perguntavam sobre a minha presença. Mas não fez muita diferença, não.
Você tem o sonho de entrar para o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). O que ele simboliza para você? Até 2011, somente homens podiam se inscrever para o concurso por conta de uma cláusula que dizia que só estavam aptos “soldados e cabos do sexo masculino”. Quando essa regra mudou, eu me inscrevi, mas a recepção não foi boa, porque eles não querem mulher no Bope, essa é a verdade. Fiz os testes, de qualquer jeito, e não passei. Este ano vou tentar de novo. O que me atrai é o treinamento, mesmo, que é mais intenso. Seria uma especialização a mais dentro da área.
O trabalho na polícia deixou você mais "durona"? Acho que sim, pelo sofrimento que a gente vê, bem de perto. Quando a gente vê as coisas que o ser humano é capaz de fazer, a gente começa a endurecer.
Você assiste à novela Salve Jorge? Sente que as policiais e delegadas são bem retratadas? Eu tento assistir. O pessoal do Facebook costuma brincar e me chamar de Helô, uma referência à delegada da novela. Eu me identifico com ela quando ela não consegue separar a vida pessoal da profissional. O problema da profissão policial é que a gente não consegue se desligar, sair do batalhão e simplesmente apertar um botão.
Acha que a TV ajuda as mulheres a serem mais bem aceitas na polícia? Acho que sim. Mas como falei, não tem preconceito, se elas quiserem trabalhar na rua, vai ter lugar. (Veja).

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